FARINACCIO, Pascoal. OswaldGlauber. Niterói: Editora da UFF, 2012. 

Este não é um livro sobre o escritor Oswald de Andrade. Este não é um livro sobre o cineasta Glauber Rocha. Este é um livro sobre OswaldGlauber, zona de tangência entre dois artistas que se propuseram a pensar o Brasil e a cultura. Figuras de proa na vida cultural brasileira do século XX, Oswald e Glauber eram conscientes de que toda produção de linguagem implica em reprodução de ideologia. Janelas pelas quais se abrem vistas amplas de nossa sociedade, suas obras propõem nada menos que uma revisão crítica da arte e das práticas sociais em terra brasilis. Em ambos, experimentação estética e análise da sociedade são faces de uma mesma moeda cuja articulação simultânea é o que confere lastro à própria obra. Resistentes à prova do tempo (e já se vão trinta anos da morte de Glauber, comemorados recentemente, e quase sessenta da morte de Oswald) e aos modismos estéticos, não surpreende que a Antropofagia e o Cinema Novo tenham se consolidado como linhas de força das mais representativas no cenário artístico brasileiro da segunda metade do século XX, estabelecendo vasos comunicantes com tendências contemporâneas as mais diversas (do Teatro Oficina e do Tropicalismo nos anos 60 ao mangue beat nos anos 90), sendo flagrantes  a persistência e a pertinência de suas pautas de debate mesmo no século XXI. Artistas irreverentes que pensavam a arte e objetivivam atuar diretamente sobre a dinâmica dos quadros socioculturais vigentes, a aproximação entre Oswald e Glauber é quase inevitável. E se a aproximação se dá pela importância, curiosamente também se dá pelo nome: Oswald de Andrade, Glauber de Andrade de Rocha. OswaldGlauber. Familiarizado com as duas figuras que compõe esse binômio, Pascoal Farinaccio traça com propriedade, clareza e argúcia essa zona de tangência entre os dois artistas e suas obras, investigando-a em suas consequências tanto estéticas quanto ideológicas. O resultado é uma obra de referência não apenas sobre cinema e literatura, como também sobre as sempre polêmicas relações entre arte e revolução, recomendada para pesquisadores das áreas de literatura brasileira, cinema, teoria da literatura, literatura comparada e comunicação. 
CARDOSO, Lúcio. Diários. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

Em 2012 comemoramos o centenário de nascimento de Lúcio Cardoso, ocasião em que surgem celebrações pontuais da memória desse escritor que legou uma obra densa e cujo círculo de atração merece ser ampliado. É com essa disposição que recebemos a publicação dos Diários, modalidade de escrita de si realizada com maestria por L. C., cuja composição se fez em ritmo irregular ao longo de duas décadas. Ésio Macedo Ribeiro foi responsável pela organização do livro, que contém quatro partes e se estende entre os anos de 1942 e 1962. Iniciativa e trabalho dignos de aplauso, resultado de um longo mergulho na obra do autor, no qual ressaltam não apenas o conhecimento e a intimidade com o objeto, mas também a ciência segura dos métodos implicados na edição de diários. No entanto, é necessário registrar que o organizador derrapa, com frequência, nas notas: algumas delas, sobre autores ou fatos de pouca ou nenhuma relevância, ocupam espaço demais na página e na atenção do leitor, enquanto aquelas que poderiam oferecer informações que ampliassem nosso conhecimento sobre aquilo que é encenado (já que, aqui, mais do que um diário o que temos é o que o autor chancela sob a rubrica de prosa dramática) nos diários são sumariamente despachadas. Por exemplo: na página 682, L. C. se refere às leituras a que se tem dedicado; refere-se a Bandeira, Drummond, Cyro dos Anjos e um romance de Mário Palmério que o entusiasma de sobremaneira. Sob o afã quase maníaco de abrir uma nota de rodapé, o organizador nos informa, então, que Mário Palmério nasceu em 1920 e morreu em 1996, "romancista, educador e político brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras". Além de ficarmos sabendo de quem se trata com uma sumariedade típica dos mecanismos de busca da internet, a principal informação nos é sonegada pela nota - qual seja: que livro seria esse, escrito por Mário Palmério e incensado por L. C. Outro exemplo: o texto "Livro de Bordo" começa com uma dedicatória a Rodrigo de Haro. Dessa vez, surpreendentemente, o organizador não cedeu à comichão de uma nota de rodapé, justamente quando poderia ter informado a um público mais amplo sobre as atividades plásticas e poéticas de Rodrigo de Haro, importante figura atuante nas letras e na pintura brasileira desde a década de 1950, com conexões com Roberto Piva e Claudio Willer - o que levaria ao organizador verdadeiramente atento a indagar sobre a origem das relações entre Rodrigo de Haro e L. C. Acreditamos que numa reedição futura dos Diários seja facultado ao organizador sanar as imperfeições, ou pelo menos aparar tais arestas. Uma boa inspiração para o potencial das notas explicativas talvez fosse a reedição de Five o´clock feita pela Antiqua e pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, em 2006. De qualquer forma, os excessos e imprecisões das notas não comprometem o vigor do trabalho editorial, que merece, como dito antes, acolhimento e aplauso. Vale ressaltar que felizmente estamos diante de uma edição que não apenas é meritória por conta da capacidade que o organizador teve para lidar com questões de crítica textual, como também pelo fato de que há valor explicitamente estético no texto. Espraiando-se por duas décadas, com alternâncias contínuas de tom e de mood, lampejam nos Diários reflexões (estéticas e morais), aforismos, impressões de leituras, projetos de livros, fragmentos de toda sorte, ora carregando no pathos trágico e desviante ("num certo sentido, não há futuro para mim, porque não o atual; sinto-me arder como um facho de exceção, e o que me queima não é o meu possível, mas o meu definitivo, e este é permanente") ora liberando-se à beleza apolínea de uma écriture artiste que é plasticidade pura em suas qualidades pictóricas ("esse invento sabido em seu mal de safira. Ode vulgar e instinto armado como um poço preto"). L. C. era, ele mesmo, um leitor atento de diários. Há, ao longo dos seus, referências aos de Melville, Gide etc.



BANDEIRA, Manuel. Estrela da tarde. São Paulo: Global, 2012. 

Obra da maturidade de Manuel Bandeira, o volume de poemas Estrela da tarde foi publicado pela primeira vez em 1960, em edição hors commerce. É Bandeira na tarde do espírito e, não por acaso, revelam-se aqui, igualmente, os tons maduros de sua poesia, lançando-se, com desenvoltura, do elegíaco (caso de "Elegia a Londres", "Elegia a Ribeiro Couto",  "Ovalle" e toda a seção "Preparação para a morte") ao erótico ("Nu"). No plano formal, essa oscilação pendular é mantida, como se percebe pelo manejo de formas fixas do repertório tradicional (os diversos sonetos que compõem o livro) a se avizinhar de experimentações focadas na espacialização do poema (nas seções "Composição" e "Ponteios"). Essas últimas, diga-se, são a grande surpresa do volume: é curioso constatar como para Bandeira a plataforma de lançamento dos concretos (espacialização; desarticulação gráfica; ênfase na paronomásia) só faria sentido se encarada, acima de tudo, como prática lúdica - o que não o impede de atingir resultados interessantes, há que se ressaltar. Prefácio impecável de Davi Arrigucci, um dos mais refinados leitores de poesia no âmbito acadêmico neste momento.