Em 2012 comemoramos o centenário de nascimento de Lúcio Cardoso, ocasião em que surgem celebrações pontuais da memória desse escritor que legou uma obra densa e cujo círculo de atração merece ser ampliado. É com essa disposição que recebemos a publicação dos Diários, modalidade de escrita de si realizada com maestria por L. C., cuja composição se fez em ritmo irregular ao longo de duas décadas. Ésio Macedo Ribeiro foi responsável pela organização do livro, que contém quatro partes e se estende entre os anos de 1942 e 1962. Iniciativa e trabalho dignos de aplauso, resultado de um longo mergulho na obra do autor, no qual ressaltam não apenas o conhecimento e a intimidade com o objeto, mas também a ciência segura dos métodos implicados na edição de diários. No entanto, é necessário registrar que o organizador derrapa, com frequência, nas notas: algumas delas, sobre autores ou fatos de pouca ou nenhuma relevância, ocupam espaço demais na página e na atenção do leitor, enquanto aquelas que poderiam oferecer informações que ampliassem nosso conhecimento sobre aquilo que é encenado (já que, aqui, mais do que um diário o que temos é o que o autor chancela sob a rubrica de prosa dramática) nos diários são sumariamente despachadas. Por exemplo: na página 682, L. C. se refere às leituras a que se tem dedicado; refere-se a Bandeira, Drummond, Cyro dos Anjos e um romance de Mário Palmério que o entusiasma de sobremaneira. Sob o afã quase maníaco de abrir uma nota de rodapé, o organizador nos informa, então, que Mário Palmério nasceu em 1920 e morreu em 1996, "romancista, educador e político brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras". Além de ficarmos sabendo de quem se trata com uma sumariedade típica dos mecanismos de busca da internet, a principal informação nos é sonegada pela nota - qual seja: que livro seria esse, escrito por Mário Palmério e incensado por L. C. Outro exemplo: o texto "Livro de Bordo" começa com uma dedicatória a Rodrigo de Haro. Dessa vez, surpreendentemente, o organizador não cedeu à comichão de uma nota de rodapé, justamente quando poderia ter informado a um público mais amplo sobre as atividades plásticas e poéticas de Rodrigo de Haro, importante figura atuante nas letras e na pintura brasileira desde a década de 1950, com conexões com Roberto Piva e Claudio Willer - o que levaria ao organizador verdadeiramente atento a indagar sobre a origem das relações entre Rodrigo de Haro e L. C. Acreditamos que numa reedição futura dos Diários seja facultado ao organizador sanar as imperfeições, ou pelo menos aparar tais arestas. Uma boa inspiração para o potencial das notas explicativas talvez fosse a reedição de Five o´clock feita pela Antiqua e pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, em 2006. De qualquer forma, os excessos e imprecisões das notas não comprometem o vigor do trabalho editorial, que merece, como dito antes, acolhimento e aplauso. Vale ressaltar que felizmente estamos diante de uma edição que não apenas é meritória por conta da capacidade que o organizador teve para lidar com questões de crítica textual, como também pelo fato de que há valor explicitamente estético no texto. Espraiando-se por duas décadas, com alternâncias contínuas de tom e de mood, lampejam nos Diários reflexões (estéticas e morais), aforismos, impressões de leituras, projetos de livros, fragmentos de toda sorte, ora carregando no pathos trágico e desviante ("num certo sentido, não há futuro para mim, porque não o atual; sinto-me arder como um facho de exceção, e o que me queima não é o meu possível, mas o meu definitivo, e este é permanente") ora liberando-se à beleza apolínea de uma écriture artiste que é plasticidade pura em suas qualidades pictóricas ("esse invento sabido em seu mal de safira. Ode vulgar e instinto armado como um poço preto"). L. C. era, ele mesmo, um leitor atento de diários. Há, ao longo dos seus, referências aos de Melville, Gide etc.
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